A Guardiã das Ervas no Mercado Central de Porto Velho

Atualizado: 26 de jul.
Há quarenta anos, dona Anita abre a mesma barraca no Mercado Central de Porto Velho. Escondidinha em um dos cantos do mercado, ela mantém vivo um conhecimento que começou no interior do Amazonas, quando remédio se aprendia em casa e a floresta era a farmácia da família. Hoje, sua banca é a mais antiga do Mercado Central dedicada às ervas e à medicina popular.

Quem gosta de conhecer uma cidade pelos seus sabores acaba, mais cedo ou mais tarde, entrando em um mercado.
Em Porto Velho, esse caminho leva ao Mercado Central. Quem procura ervas no Mercado Central de Porto Velho encontra muito mais do que plantas, cascas e raízes. Bem em frente ao complexo histórico da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o prédio acompanha a cidade há mais de um século. Pelos corredores passam moradores, turistas, cozinheiros, curiosos e aquele sujeito que entrou apenas para comprar um café e saiu levando farinha, castanha, pimenta e uma boa conversa.
Encontrar a barraca da dona Anita, curiosamente, faz parte do passeio.
Ela fica escondidinha em um dos cantos do mercado. Quem chega pela primeira vez talvez passe por ela sem perceber. Mas basta perguntar a qualquer feirante:
— Onde fica a barraca da dona Anita?
A resposta vem na hora.
Todo mundo sabe.
Não porque ela esteja no lugar mais visível, mas porque, quando o assunto é ervas no Mercado Central de Porto Velho, o caminho termina sempre na mesma banca. Há quarenta anos ela ocupa aquele espaço e, hoje, é a mais antiga do Mercado Central dedicada a esse ofício.
Foi ali que a encontrei.
A barraca não chama atenção pelo tamanho. Chama pela quantidade de folhas, cascas, raízes, garrafadas, xaropes e pequenos pacotes que ocupam cada cantinho. Para quem olha de longe, parece tudo parecido. Para dona Anita, cada erva tem nome, história e uma finalidade.
Ela veio do interior do Amazonas, onde cresceu numa época em que médico era coisa distante.
— A gente aprendia com os pais.
É assim que ela resume uma infância inteira.
A mãe ensinava.
Os tios entravam na mata para buscar cascas, raízes e folhas.
Depois vinham os preparos.
Cada planta tinha uma utilidade. O conhecimento passava naturalmente de uma geração para outra, sem caderno, sem receita escrita, apenas pela convivência.
Quarenta anos depois, dona Anita continua fazendo praticamente a mesma coisa.
Enquanto conversa, vai apontando as prateleiras.
Tem composto para o fígado.
Para útero e ovário.
Tem erva para próstata.
Tem chá.
Tem garrafada.
Tem xarope que ela mesma prepara.
Tem folhas para quem prefere fazer o remédio em casa.
Ela fala de cada uma como quem apresenta velhos conhecidos.
A lista parece não ter fim.
Dor de cabeça.
Problema no estômago.
Bronquite.
Pulmão.
Reumatismo.
E sempre aparece alguém perguntando por mais alguma coisa.
Ela escuta com atenção, pensa por alguns segundos e procura a erva certa.
Em quarenta anos de balcão, talvez já tenha ouvido praticamente todas as perguntas possíveis.
Quem visita o mercado em busca de ervas no Mercado Central de Porto Velho acaba descobrindo que o conhecimento de dona Anita faz parte da identidade daquele lugar.
No Mercado Central, as ervas dividem espaço com cafés especiais de Rondônia, peixes, temperos, frutas amazônicas e farinha recém-chegada do interior. Cada corredor guarda uma história. A de dona Anita continua sendo contada todos os dias, discretamente, naquela barraca escondida que quase ninguém encontra sozinho, mas que todos sabem indicar.
É uma dessas pequenas histórias que ajudam a explicar por que os mercados continuam sendo lugares tão interessantes. Ali, entre uma compra e outra, ainda é possível encontrar pessoas que carregam consigo um conhecimento inteiro.
E dona Anita é uma delas. Para muitos moradores e visitantes, falar em ervas no Mercado Central de Porto Velho é, inevitavelmente, falar da barraca onde ela mantém vivo um conhecimento que atravessa gerações.



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