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Aleks Palitot e o futuro que nasce da memória de Porto Velho

  • Foto do escritor: Chefs de Rondônia
    Chefs de Rondônia
  • 12 de jul.
  • 13 min de leitura

Atualizado: há 20 horas

Historiador e Secretário Executivo de Turismo, Aleks Palitot aposta na valorização da história, da gastronomia e das riquezas naturais para consolidar Porto Velho como um dos destinos mais autênticos da Amazônia. A entrevista foi concedida durante um percurso pelo Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, onde o historiador apresentou episódios marcantes da formação de Porto Velho e mostrou como a história da cidade continua presente em sua cultura, em sua gastronomia e em seu potencial turístico.


Aleks Palitot no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, patrimônio histórico que preserva a memória da construção de Porto Velho. Foto: Eduardo Francischelli
Aleks Palitot no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, patrimônio histórico que preserva a memória da construção de Porto Velho. Foto: Eduardo Francischelli


Quando a gastronomia começa pela História: a visão de Aleks Palitot


Quando Aleks Palitot fala sobre gastronomia, ele começa pela História.


A explicação está na própria formação de Rondônia. Poucos estados brasileiros reuniram, em um espaço tão recente, pessoas vindas de tantas regiões do país e do mundo. Povos indígenas, comunidades tradicionais do Baixo Madeira, nordestinos atraídos pelo ciclo da borracha, trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, migrantes que chegaram durante os projetos de colonização agrícola e famílias vindas em diferentes períodos da ocupação da Amazônia deixaram marcas que permanecem vivas na cultura e na cozinha rondoniense.


“Se o mundo se encontra em São Paulo, o Brasil se encontra em Rondônia”, resume o historiador.


A frase sintetiza uma característica fundamental para compreender o estado. Rondônia nasceu da convergência de povos, culturas e territórios. Essa diversidade dificulta a busca por uma única origem para sua culinária. Os sabores daqui foram sendo construídos ao longo do tempo, acompanhando cada ciclo histórico vivido pela região.


As comunidades tradicionais do Baixo Madeira preservam técnicas e ingredientes ligados aos rios amazônicos. O ciclo da borracha trouxe para a região os hábitos alimentares dos trabalhadores nordestinos. A construção da Madeira-Mamoré aproximou Porto Velho de diferentes nacionalidades, que chegaram trazendo seus temperos, seus modos de cozinhar e de compartilhar a mesa. Décadas depois, os projetos de colonização ampliaram ainda mais esse mosaico cultural, incorporando novas receitas e novos ingredientes à cozinha local.


Compreender a gastronomia de Rondônia exige conhecer os caminhos percorridos por essas pessoas.


Cada deslocamento deixou um ingrediente. Cada encontro incorporou uma técnica. Cada geração acrescentou novos elementos sem apagar aquilo que já existia.


O resultado aparece à mesa.


Percorrer Rondônia é encontrar experiências gastronômicas que mudam de um município para outro, acompanhando as histórias de quem ocupou cada território. A culinária revela memórias familiares, processos migratórios, relações com os rios, com a floresta e com a terra.


“Sabor também é sentimento. Sabor também é território”, afirma.


É essa relação entre memória, identidade e gastronomia que orienta sua maneira de pensar o turismo. Para Aleks Palitot, conhecer um lugar passa por compreender a história das pessoas que vivem ali e reconhecer como essa história permanece presente nos pratos servidos todos os dias.


Receitas que guardam séculos de memória


A História também ajuda a explicar por que alguns pratos encontrados em Rondônia não existem da mesma forma em nenhum outro lugar do país.


Aleks Palitot costuma recorrer a exemplos que revelam como as receitas acompanham os movimentos das pessoas. Uma delas remonta aos primeiros tempos da ocupação portuguesa na região do Guaporé. Os povos indígenas já dominavam técnicas de conservação do peixe por meio da desidratação e do uso do sal. O conhecimento foi incorporado pelos colonizadores e passou a dialogar com tradições da culinária portuguesa, acostumada ao consumo do bacalhau.


O tacacá guarda uma história semelhante.


A sopa indígena chegou ao atual território de Rondônia muito antes de receber um ingrediente que hoje desperta curiosidade até entre os próprios amazônidas: a pipoca. Segundo Aleks Palitot, essa adaptação surgiu em Guajará-Mirim, durante a formação da cidade. Com a chegada de famílias paraenses à região, o costume de consumir tacacá também atravessou a fronteira. Como o camarão utilizado na receita tradicional era de difícil acesso, a pipoca passou a ocupar esse lugar, acrescentando textura ao caldo e criando a versão característica da culinária local.


São detalhes que dificilmente aparecem nos livros de receitas.


Cada adaptação registra um deslocamento humano, uma limitação geográfica ou a disponibilidade de ingredientes encontrados na floresta. A cozinha acompanha essas mudanças sem perder a memória de sua origem.


O mesmo aconteceu durante o ciclo da borracha.


Milhares de nordestinos chegaram à Amazônia trazendo hábitos alimentares construídos no sertão. Encontraram rios abundantes, mandioca, frutas amazônicas, ervas e peixes desconhecidos para muitos deles. A cozinha que nasceu desse encontro preservou referências do Nordeste e incorporou ingredientes da floresta, formando preparações que pertencem à Amazônia sem abandonar as lembranças da terra de origem.


No Baixo Madeira, essa relação permanece evidente.


A mandioca ocupa lugar central na alimentação das comunidades tradicionais. Tucupi, frutas amazônicas, peixes de água doce e ingredientes como o açaí, a pupunha e o cupuaçu ajudam a definir uma culinária que continua em transformação. Cada geração acrescenta novos elementos, preserva outros e mantém viva uma história escrita diariamente à mesa.


A identidade de Rondônia mora na diversidade


A pergunta aparece com frequência nas conversas sobre cultura regional. Qual é o prato típico de Rondônia? Qual é sua música? Qual é a dança que melhor representa o estado?


Aleks Palitot acredita que essas perguntas partem de uma expectativa criada a partir de outras regiões brasileiras, onde determinados símbolos acabaram se consolidando como representação de uma identidade cultural. Rondônia seguiu outro caminho.


A história do estado produziu uma cultura formada por encontros sucessivos. Cada ciclo migratório acrescentou novas referências sem substituir as anteriores. O resultado permanece visível na culinária.


Para explicar essa característica, Aleks recorre a uma imagem que costuma utilizar em suas palestras.


Ele imagina um caboclo amazônico tomando tacacá em uma cuia de chimarrão. Logo ao lado, um gaúcho bebe chimarrão em uma cuia usada tradicionalmente para servir tacacá.


A cena resume a formação de Rondônia.


Objetos, costumes, receitas e tradições atravessaram fronteiras, encontraram novos territórios e passaram a conviver naturalmente. A cultura local não eliminou diferenças. Aprendeu a acolhê-las.


Essa convivência também aparece à mesa.


Em um mesmo roteiro gastronômico, o visitante pode encontrar peixada capixaba, vatapá, pão de queijo, tapioca, churrasco, torresmo, queijos artesanais e, poucos quilômetros adiante, pratos preparados com pirarucu, tambaqui, pacu e outras espécies amazônicas. Ingredientes da floresta convivem com receitas trazidas por famílias vindas do Sul, do Sudeste, do Nordeste e de diferentes países.


Aleks não vê contradição nessa diversidade.


Ela representa a própria formação histórica de Rondônia.


O estado não foi construído a partir de uma única corrente migratória. Povos indígenas, seringueiros, trabalhadores da Madeira-Mamoré, colonos, agricultores e famílias que chegaram em diferentes períodos contribuíram para formar um patrimônio cultural que permanece aberto a novas influências.


Por isso, ele prefere não procurar um único prato que represente Rondônia.


Cada município revela sabores diferentes. Cada comunidade preserva técnicas próprias. Cada família acrescenta pequenas adaptações que continuam transformando a cozinha regional.


Quem visita Rondônia encontra uma Amazônia atravessada pela diversidade brasileira. Os peixes dos rios convivem com o churrasco preparado no interior. O tacacá divide espaço com a culinária trazida por migrantes. A mandioca permanece ao lado de receitas que viajaram milhares de quilômetros até chegar à floresta.


Aleks costuma fazer um convite simples aos visitantes.


Chegar a Rondônia disposto a procurar apenas um prato típico significa conhecer apenas uma pequena parte do estado. Percorrer seus municípios, conversar com seus cozinheiros, visitar mercados, feiras e restaurantes permite compreender uma característica que atravessa toda a sua história.


Em Rondônia, a identidade cultural foi construída pela convivência entre diferentes povos, diferentes cozinhas e diferentes maneiras de compreender o Brasil.


E talvez seja justamente essa a experiência que o visitante leva consigo: a oportunidade de encontrar, no coração da Amazônia, um Brasil que muitos ainda não conhecem.


Aleks Palitot diante de uma das locomotivas que marcaram  o nascimento de Porto Velho
Aleks Palitot diante de uma das locomotivas que marcaram o nascimento de Porto Velho. `Foto: Eduardo Francischelli

A ferrovia também moldou a cozinha de Porto Velho


A história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré também pode ser contada à mesa.


Aleks Palitot costuma imaginar a chegada dos milhares de trabalhadores que desembarcaram na Amazônia entre o fim do século XIX e o início do século XX para enfrentar um dos maiores desafios da engenharia mundial. Vieram de diferentes países, carregando hábitos, idiomas e lembranças da comida preparada em suas terras de origem. Encontraram uma floresta que lhes era completamente desconhecida.


Ali descobriram novos aromas, novos ingredientes e outras formas de cozinhar.


Os povos originários já dominavam o uso de peixes amazônicos, da mandioca, das frutas da floresta e de técnicas adaptadas ao ambiente amazônico. Muitos daqueles trabalhadores experimentaram pela primeira vez o tucumã, o buriti, o cupuaçu, os peixes dos rios e preparações que faziam parte do cotidiano das comunidades locais. A alimentação também se tornou um espaço de encontro entre culturas.


Parte dessa experiência permanece viva em Porto Velho.


Quem percorre hoje os espaços ligados à Madeira-Mamoré encontra vestígios dessa história espalhados pela cidade. Ela aparece nos trilhos preservados, nos antigos galpões, nas margens do Rio Madeira e também nos cardápios de restaurantes que reinterpretam ingredientes amazônicos ou preservam receitas transmitidas ao longo das gerações.


Aleks acredita que essa diversidade constitui um dos grandes diferenciais gastronômicos da capital.


Em poucos dias, um visitante pode experimentar cozinhas de diferentes origens, italiana, árabe, nordestina, sulista e amazônica, sem deixar a cidade. Essa convivência reflete a própria formação de Porto Velho e ajuda a explicar por que a culinária local reúne tantas referências culturais.


Ao mesmo tempo, basta seguir alguns quilômetros pelo Rio Madeira ou pelas estradas que conduzem às comunidades ribeirinhas para encontrar outra experiência.


Peixes assados na folha de bananeira, caldeiradas preparadas com espécies amazônicas, farinha produzida artesanalmente, frutas colhidas na floresta e receitas preservadas pelas famílias revelam uma cozinha profundamente ligada ao território e ao ritmo dos rios.


É nesse percurso que Aleks Palitot acredita estar uma das maiores riquezas do turismo em Rondônia.


O visitante pode conhecer uma gastronomia sofisticada, elaborada por chefs que pesquisam ingredientes amazônicos e desenvolvem releituras contemporâneas. Também pode sentar-se à mesa de uma comunidade ribeirinha e provar preparações que atravessaram décadas quase sem alterações.


Cada uma dessas experiências ajuda a compreender como a floresta, os rios e os movimentos migratórios continuam presentes na identidade cultural de Rondônia. É justamente essa diversidade de vivências que Aleks Palitot procura apresentar a quem chega à capital: uma viagem em que a história se revela em cada paisagem e continua sendo contada por meio da gastronomia.


Birdwatching: Porto Velho vista pelo canto das aves


Há alguns anos, uma nova paisagem passou a integrar o roteiro de quem chega a Porto Velho.


Arara-canindé (Ara ararauna), uma das aves mais emblemáticas da Amazônia, é presença frequente em Porto Velho. Suas cores vibrantes e o voo imponente fazem dela um dos maiores símbolos da biodiversidade de Rondônia.
Arara-canindé (Ara ararauna), uma das aves mais emblemáticas da Amazônia, é presença frequente em Porto Velho. Suas cores vibrantes e o voo imponente fazem dela um dos maiores símbolos da biodiversidade de Rondônia.

Ela não está nos monumentos nem nos museus. Está nas copas das árvores, às margens dos rios e nos fragmentos preservados da floresta.


Aleks Palitot acompanha de perto o crescimento do birdwatching, a observação de aves, atividade que vem transformando Porto Velho em um dos principais destinos brasileiros para ornitólogos, fotógrafos de natureza e viajantes interessados na biodiversidade amazônica.


Os números ajudam a compreender esse interesse. O território de Porto Velho abriga cerca de 730 espécies de aves registradas, uma das maiores diversidades já catalogadas em uma capital brasileira. Essa riqueza biológica atrai pesquisadores, observadores experientes e visitantes que percorrem milhares de quilômetros para encontrar espécies que existem apenas na Amazônia.


Para Aleks, esse visitante raramente conhece apenas as aves.


A experiência começa ao amanhecer, quando a floresta desperta com os primeiros cantos. Depois segue pelos rios, pelas trilhas, pelos parques naturais e pelas comunidades que convivem diariamente com essa biodiversidade. Ao longo do percurso, o turista também encontra a história da cidade, conhece a formação da floresta, conversa com moradores, visita mercados e descobre uma gastronomia construída a partir desse mesmo território.


Os sentidos participam da viagem inteira.


A paisagem se revela pelos sons, pelas cores e pelos movimentos da mata. À mesa, a experiência continua por meio dos ingredientes amazônicos, dos peixes dos rios, das frutas da floresta e das receitas que carregam a memória das diferentes populações que formaram Rondônia.


Aleks acredita que essa integração entre natureza, história e gastronomia representa uma das maiores oportunidades para o turismo de Porto Velho.


O visitante que chega para observar aves amplia naturalmente seu roteiro. Conhece a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, percorre o Mercado Central, navega pelo Rio Madeira, experimenta a culinária regional e compreende que a floresta também está presente na cultura, na alimentação e na maneira como as pessoas vivem.


Esse olhar ajuda a consolidar uma nova imagem da capital.


Durante muito tempo, Porto Velho foi lembrada como ponto de passagem para quem seguia viagem pela Amazônia. Hoje, a cidade começa a ser reconhecida como destino. Um lugar onde natureza, patrimônio histórico e gastronomia formam uma mesma experiência, capaz de despertar a curiosidade de quem chega e deixar lembranças que permanecem muito depois da viagem terminar.


Pesca esportiva e gastronomia: uma parceria natural


O mesmo movimento acontece com outro segmento que cresce em Rondônia: a pesca esportiva.


Aleks Palitot observa que milhares de visitantes chegam à Amazônia motivados pelo desafio de encontrar grandes espécies de peixes em um dos sistemas fluviais mais ricos do planeta. Guias especializados conduzem expedições pelos rios, lagos e igarapés, transformando a pescaria em uma experiência que reúne conhecimento ambiental, contemplação e aventura.


A captura do peixe costuma marcar a fotografia que acompanha o turista de volta para casa.


A viagem, porém, não termina às margens do rio.


Depois de um dia na floresta, esses visitantes procuram conhecer a cidade que os recebeu. Caminham pelos mercados, visitam os espaços históricos, conversam com moradores e descobrem a culinária produzida por restaurantes que fazem dos ingredientes amazônicos a principal matéria-prima de suas cozinhas.


Aleks enxerga nessa conexão uma oportunidade importante para o desenvolvimento do turismo em Porto Velho.


Quem chega para observar aves também se interessa pela história da cidade. Quem participa de uma expedição de pesca esportiva deseja compreender a cultura local. Quem visita a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré costuma procurar um restaurante para experimentar peixes amazônicos, frutas da floresta, castanhas, farinhas e receitas que traduzem a identidade da região.


Essa circulação beneficia uma cadeia muito maior do que normalmente se imagina.


Guias de turismo, piloteiros, pescadores, produtores rurais, feirantes, cozinheiros, chefs, pequenos empreendedores e comerciantes passam a fazer parte da mesma experiência oferecida ao visitante. Cada encontro amplia a permanência do turista na cidade e fortalece a economia construída em torno do patrimônio natural e cultural de Rondônia.


Para Aleks Palitot, esse é um dos caminhos para consolidar Porto Velho como destino turístico.


A floresta desperta a curiosidade. Os rios conduzem as expedições. A história ajuda a compreender o território. A gastronomia recebe o visitante à mesa e transforma a viagem em uma lembrança que continua viva muito depois do retorno para casa.


O desafio agora é construir uma rede


Ao longo da conversa, um tema aparece repetidas vezes.


Aleks Palitot acredita que Rondônia já possui os elementos necessários para se consolidar como um dos principais destinos turísticos da Amazônia. O desafio está em aproximar pessoas e instituições que, muitas vezes, trabalham em paralelo.


Na sua visão, o turismo começa muito antes da chegada do visitante.


Ele envolve quem produz a castanha, quem cultiva frutas, quem pesca nos rios amazônicos, quem cria o gado, quem abastece as feiras, quem preserva os saberes das comunidades tradicionais, quem prepara os pratos nos restaurantes, quem administra hotéis, quem conduz embarcações, quem organiza eventos, quem pesquisa a história da região e quem recebe o turista quando ele desembarca em Porto Velho.


Cada um participa da mesma cadeia.


Aleks defende que essa rede precisa se reconhecer como parte de um projeto comum. Fóruns, encontros, oficinas e espaços permanentes de diálogo podem aproximar produtores, empresários, chefs, instituições públicas, universidades e representantes do setor turístico. A integração, segundo ele, cria oportunidades para construir roteiros mais completos e experiências capazes de apresentar Rondônia em toda a sua diversidade.


A capital recebe, todos os anos, empresários, pesquisadores, investidores, palestrantes e participantes de grandes eventos. Muitos permanecem poucos dias na cidade e retornam sem conhecer aquilo que Porto Velho oferece além dos compromissos profissionais.


Aleks enxerga nesse cenário uma oportunidade.


Esses visitantes podem conhecer o Mercado Central, percorrer a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, navegar pelo Rio Madeira, experimentar a culinária amazônica, visitar restaurantes, conversar com chefs e produtores locais e descobrir uma cidade que ainda permanece pouco conhecida por boa parte do país.


Essa experiência amplia o tempo de permanência do turista, fortalece a economia local e cria vínculos que dificilmente seriam construídos apenas durante uma agenda de trabalho.


Ao longo da entrevista, Aleks Palitot retorna diversas vezes à mesma ideia.


A gastronomia ocupa um lugar estratégico nesse processo porque reúne pessoas, preserva memórias e traduz a identidade de um território. Um ingrediente carrega a história de quem o produziu. Uma receita atravessa gerações. Um prato servido à mesa pode despertar a curiosidade para conhecer um mercado, uma comunidade ribeirinha, uma ferrovia centenária ou uma floresta que abriga uma das maiores diversidades de aves do planeta.


É dessa conexão que nasce o turismo que ele imagina para Rondônia.


Um turismo construído pela cooperação entre o poder público, os empreendedores, os produtores, os pesquisadores, os cozinheiros e as comunidades que preservam esse patrimônio cultural. Um turismo que transforma visitantes em viajantes atentos à história, à natureza e aos sabores da Amazônia.


Uma cidade construída pelos encontros


A conversa chega ao fim exatamente onde a história de Porto Velho começou.


Aleks Palitot volta o olhar para a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.


Foi naquele trecho às margens dos rios Madeira e Mamoré que nasceu a cidade. O apito das locomotivas, o movimento das oficinas, o trabalho dos operários e a chegada de pessoas vindas de mais de cinquenta nacionalidades transformaram uma pequena faixa de floresta em um dos lugares mais simbólicos da ocupação da Amazônia.


A cidade cresceu acompanhando esses trilhos.


Cada família que desembarcou trouxe lembranças de sua terra de origem. Vieram receitas, modos de cozinhar, técnicas, sotaques e ingredientes que, ao longo do tempo, passaram a dialogar com os saberes indígenas e com a biodiversidade amazônica. A história de Porto Velho também pode ser contada por aquilo que foi servido à mesa.


É essa cidade que Aleks Palitot procura apresentar aos visitantes.


Uma cidade que nasceu da coragem de homens e mulheres que enfrentaram a floresta para construir uma ferrovia. Uma cidade moldada pelos rios, pela diversidade de povos e pela capacidade de transformar encontros em cultura.


O roteiro que ele imagina para quem chega a Rondônia começa na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Continua pelo Rio Madeira, pelo Mercado Central, pelas comunidades tradicionais, pelas áreas preservadas da floresta, pelas trilhas de observação de aves, pelas expedições de pesca esportiva e pelos restaurantes onde chefs transformam ingredientes amazônicos em experiências capazes de revelar a identidade da região.


Cada parada acrescenta um capítulo dessa história.


O visitante observa o pôr do sol sobre o Rio Madeira. Conhece cachoeiras, percorre comunidades ribeirinhas, conversa com produtores, experimenta frutas da floresta, prova peixes amazônicos e percebe que a Amazônia se revela de muitas maneiras. Pela paisagem. Pela memória. Pela cozinha.


Ao longo da entrevista, Aleks Palitot nunca separa esses elementos.


A floresta aparece ao lado da ferrovia. A gastronomia surge junto da história. O turismo aproxima quem produz os ingredientes, quem preserva os saberes tradicionais, quem cozinha e quem chega disposto a conhecer um lugar novo.


Essa talvez seja a principal mensagem de sua trajetória como historiador e gestor público.


Porto Velho não pede para ser observada de longe.


Convida o visitante a caminhar por suas ruas, navegar por seus rios, ouvir as histórias de quem vive aqui e sentar-se à mesa.


Foi assim que a cidade começou.


É assim que ela continua recebendo quem chega.


A cada prato servido, a cada história compartilhada e a cada visitante que descobre esse pedaço da Amazônia, Porto Velho continua escrevendo uma narrativa iniciada há mais de um século, quando uma ferrovia mudou o destino da região e aproximou mundos que jamais imaginaram se encontrar.


Hoje, os trilhos permanecem como testemunhas dessa história.


Os sabores continuam contando o restante.


A reportagem foi produzida no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. As imagens registram parte da construção da entrevista.
A reportagem foi produzida no Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. As imagens registram parte da construção da entrevista.

Clique abaixo para assistir, na íntegra, à entrvevista em vídeo com o professor e historiador Aleks Palitot.



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