Cadê o cardamomo?
- Jô Nazareth

- 12 de jul.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 2 dias
Uma história real, vivida no Delícias de Aicha, em Porto Velho. Uma crônica sobre tradições árabes, cardamomo e uma divertida lição de respeito aos sabores de uma cultura.

Confesso: na minha primeira visita ao Delícias de Aicha, achei que tinha descoberto um jeito discreto de escapar do cardamomo.
Na mesa chegou um café cremoso, servido fumegante. O aroma já anunciava que aquela não seria uma bebida qualquer. Intenso, perfumado e cheio de personalidade, ele carrega um ingrediente indispensável da tradição árabe: o cardamomo.
Quem serve esse café é Hassan Hijazi, libanês, proprietário do Delícias de Aicha. Mas dificilmente alguém o chama pelo nome. Em Porto Velho, ele é simplesmente o Primo. Dono de um jeito bem-humorado, acolhedor e, ao mesmo tempo, exigente quando o assunto é preservar as tradições da sua terra, ele faz questão de que cada cliente viva a experiência exatamente como ela deve ser.
Foi aí que resolvi agir como criança.
Disfarçadamente, retirei o cardamomo da xícara e o escondi dentro do guardanapo, convencida de que ninguém perceberia.
Percebeu.
O Primo saiu de trás do balcão, caminhou até a mesa e perguntou, com seu sotaque libanês inconfundível:
— Cadê o cardamomo? Cadê o cardamomo?

Olhei para um lado. Olhei para o outro. Fingi que não era comigo.
Ele apontou para a xícara e decretou:
— Tem que botar o cardamomo!
Não havia argumento possível.
Com a maior vergonha, desenrolei o guardanapo como quem desenterra um segredo, resgatei o cardamomo e o devolvi ao café.
Só então ele sorriu, satisfeito.
E eu também.
Naquele instante entendi que o cardamomo não era um detalhe da receita. Era a própria alma da bebida. Seu perfume, que antes me parecia estranho, passou a fazer sentido a cada gole, revelando um sabor elegante, marcante e completamente diferente de qualquer café que eu já havia experimentado.
Foi uma pequena lição servida em uma xícara.
Às vezes, para conhecer de verdade a gastronomia de um povo, é preciso deixar os próprios costumes de lado e permitir que a tradição conduza a experiência.
Então fica a dica: quando visitar o Delícias de Aicha, peça o café cremoso.
E, por favor...
Não tire o cardamomo da xícara.




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