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Cadê o cardamomo?

  • Foto do escritor: Jô Nazareth
    Jô Nazareth
  • 12 de jul.
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Uma história real, vivida no Delícias de Aicha, em Porto Velho. Uma crônica sobre tradições árabes, cardamomo e uma divertida lição de respeito aos sabores de uma cultura.


Hassan Hijazi apresenta seu delicioso café cremoso. Foto por Eduardo Francischelli.
Hassan Hijazi apresenta seu delicioso café cremoso. Foto por Eduardo Francischelli.

Confesso: na minha primeira visita ao Delícias de Aicha, achei que tinha descoberto um jeito discreto de escapar do cardamomo.


Na mesa chegou um café cremoso, servido fumegante. O aroma já anunciava que aquela não seria uma bebida qualquer. Intenso, perfumado e cheio de personalidade, ele carrega um ingrediente indispensável da tradição árabe: o cardamomo.


Quem serve esse café é Hassan Hijazi, libanês, proprietário do Delícias de Aicha. Mas dificilmente alguém o chama pelo nome. Em Porto Velho, ele é simplesmente o Primo. Dono de um jeito bem-humorado, acolhedor e, ao mesmo tempo, exigente quando o assunto é preservar as tradições da sua terra, ele faz questão de que cada cliente viva a experiência exatamente como ela deve ser.


Foi aí que resolvi agir como criança.


Disfarçadamente, retirei o cardamomo da xícara e o escondi dentro do guardanapo, convencida de que ninguém perceberia.


Percebeu.


O Primo saiu de trás do balcão, caminhou até a mesa e perguntou, com seu sotaque libanês inconfundível:


Cadê o cardamomo? Cadê o cardamomo?


Café cremoso servido no Delícias de Aicha. Fotos: Eduardo Francischelli
Café cremoso servido no Delícias de Aicha. Fotos: Eduardo Francischelli


Olhei para um lado. Olhei para o outro. Fingi que não era comigo.


Ele apontou para a xícara e decretou:


— Tem que botar o cardamomo!


Não havia argumento possível.


Com a maior vergonha, desenrolei o guardanapo como quem desenterra um segredo, resgatei o cardamomo e o devolvi ao café.


Só então ele sorriu, satisfeito.


E eu também.


Naquele instante entendi que o cardamomo não era um detalhe da receita. Era a própria alma da bebida. Seu perfume, que antes me parecia estranho, passou a fazer sentido a cada gole, revelando um sabor elegante, marcante e completamente diferente de qualquer café que eu já havia experimentado.


Foi uma pequena lição servida em uma xícara.


Às vezes, para conhecer de verdade a gastronomia de um povo, é preciso deixar os próprios costumes de lado e permitir que a tradição conduza a experiência.


Então fica a dica: quando visitar o Delícias de Aicha, peça o café cremoso.


E, por favor...


Não tire o cardamomo da xícara.


Hassan Hijazi faz questão de aparecer nas fotos com seu inseparável pano de prato sobre o ombro. Segundo ele, essa é sua marca registrada. Foto: Eduardo Francischelli
Hassan Hijazi faz questão de aparecer nas fotos com seu inseparável pano de prato sobre o ombro. Segundo ele, essa é sua marca registrada. Foto: Eduardo Francischelli.


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