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Rondônia: onde até a sopa consegue deixar a língua de férias

  • Foto do escritor: Jô Nazareth
    Jô Nazareth
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Uma crônica bem-humorada sobre um dos rituais gastronômicos mais curiosos da Amazônia. Entre o tacacá, o jambu e o espanto dos turistas, descubra por que em Rondônia até a sopa consegue deixar a língua de férias.


Tacacá tradicional com jambu e camarões servido em cuia.
Tacacá tradicional com jambu e camarões servido em cuia.


Todo rondoniense conhece aquela cena. O turista chega cheio de coragem, peito estufado, câmera no pescoço e uma frase pronta:


— Eu como de tudo.


Cinco minutos depois, está sentado na banquinha de tacacá olhando para uma cuia fumegante como quem encara um ritual indígena do qual claramente não recebeu o manual de instruções.


A vendedora pergunta:


— Vai com jambu?


O turista, sem a menor ideia do que seja jambu, responde com a confiança de quem nunca sofreu as consequências da própria ignorância:


— Capricha!


E ela capricha.


A primeira colherada vem acompanhada daquele sorriso de aprovação. O caldo é quente, o tucupi tem uma acidez elegante, o camarão seco surpreende. O visitante pensa que descobriu um novo prato favorito.


Então o jambu decide entrar em cena.


Primeiro vem um formigamento discreto. O turista estranha. Passa a língua nos dentes. Pisca algumas vezes.


Depois a língua parece esquecer o próprio emprego.


Ele tenta comentar:


— Muito bom...


Mas o que sai é algo próximo de:


— Muu... bo...


A expressão de quem está ao lado é impagável. O desespero é silencioso. O cidadão tenta movimentar os lábios como quem procura sinal de internet em plena floresta.


A pergunta inevitável aparece:


— Minha boca está torta?


Não. Só está amazônica.


A essa altura alguém sempre resolve explicar, entre uma gargalhada e outra:


— É o jambu. Daqui a pouco passa.


Só que "daqui a pouco", para quem acredita ter perdido o controle da própria língua, parece uma eternidade.


O turista faz um teste científico. Sorri. Não sente o sorriso. Aperta a língua contra o céu da boca. Também não sente. Olha para a colher como se ela tivesse colocado alguma substância misteriosa na sopa.


Em seguida vem a teoria da conspiração.


— Tem anestésico nisso?


Não, meu amigo. É apenas uma plantinha que os amazônidas colocaram na comida e transformaram em patrimônio da diversão coletiva.


O melhor momento, porém, acontece quando ele decide gravar um vídeo para a família.


— Oi, pessoal... estou experimentando o...


A gravação termina com uma sequência de sons incompreensíveis e uma crise de riso de quem está filmando.


No fim, passa.


Sempre passa.


E acontece um fenômeno curioso. Quase todo turista faz exatamente a mesma coisa.

Depois de jurar que nunca mais colocará jambu na boca, pede outra cuia.


Porque descobrir a Amazônia é isso: perceber que algumas experiências não foram feitas apenas para serem comidas. Foram feitas para serem contadas.


E poucas histórias rendem tantas gargalhadas quanto a de alguém que descobriu, da forma mais saborosa possível, que existe um lugar no Brasil onde até a sopa consegue deixar a língua de férias.



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