Ronaldo Savaris. O confeiteiro que transforma uma cafeteria em um mundo de fantasia oito vezes por ano.

Atualizado: 1 de ago.
Quem entra na Cakes Savaris encontra uma cafeteria diferente a cada temporada. Em alguns meses, o ambiente é tomado por árvores de Natal. Em outros, surgem espantalhos, flores, personagens, cenários inspirados no Halloween e vitrines completamente transformadas. O que poucos imaginam é que toda essa atmosfera nasce meses antes, entre projetos, depósitos, peças produzidas artesanalmente e um planejamento que permite a Ronaldo Savaris transformar a imaginação em uma experiência vivida pelos clientes.

Quando Ronaldo Savaris fala sobre a Cakes, a conversa raramente começa pelos doces. Ele fala do calendário, das fotografias produzidas com meses de antecedência, da troca das decorações, da organização dos depósitos e do trabalho necessário para que uma temporada seja substituída por outra sem comprometer o funcionamento da cafeteria. As vitrines, os bolos e o salão decorado são a parte que chega ao público. Antes deles há um processo contínuo de pesquisa, criação, testes, compras, produção de peças, montagem e armazenamento, conduzido enquanto a cozinha mantém sua rotina e os clientes continuam sendo atendidos.
A Cakes Savaris segue um calendário próprio, dividido em oito períodos que combinam estações do ano e datas comemorativas: verão, Páscoa, outono, festas juninas, inverno, primavera, Halloween e Natal. A mudança não se resume à substituição de alguns enfeites. Cada etapa exige uma nova leitura do espaço, a escolha de cores, a definição dos elementos que ocuparão o salão, a preparação das vitrines, a seleção de produtos e, em determinados períodos, a inclusão de itens específicos no cardápio. Os uniformes e a comunicação visual também podem acompanhar a proposta daquele momento.
O planejamento acontece com uma antecedência que dificilmente pode ser percebida por quem entra na cafeteria. Em outubro, quando o comércio começa a concentrar esforços nas vendas de fim de ano, Ronaldo e a equipe já trabalham na produção das imagens da Páscoa que será apresentada ao público meses depois. A fotografia precisa estar pronta para que o material de divulgação seja organizado e a coleção possa ser lançada no início do ano seguinte. Ao mesmo tempo, o Natal ainda está sendo preparado e outras demandas continuam circulando pela cozinha.
Essa sobreposição revela a estrutura de trabalho construída por Ronaldo. Uma temporada nunca ocupa sozinha a rotina da empresa. Há sempre uma ambientação no salão, outra sendo desenvolvida e uma terceira armazenada, à espera de voltar ao espaço no momento previsto. O cliente acompanha uma parte desse movimento. A equipe precisa lidar com o ciclo completo.
Quando a decoração de uma temporada é retirada, os objetos não desaparecem. Eles são desmontados, separados, embalados e levados aos depósitos. Algumas peças precisarão de reparos antes de serem utilizadas novamente. Outras serão modificadas para compor uma nova proposta. Há elementos produzidos ou adaptados pela própria equipe e materiais que permanecem guardados durante meses até que o calendário volte a solicitá-los. Assim, o acervo cresce e passa a exigir uma logística própria.
Nos bastidores da Cakes, três espaços são destinados ao armazenamento. Juntos, somam aproximadamente 45 metros quadrados. É uma área significativa quando comparada ao salão que o público conhece. Enquanto uma parte da cafeteria foi concebida para receber pessoas, expor doces e servir cafés, outra existe para sustentar as transformações que acontecem diante delas. Prateleiras, caixas e estruturas cenográficas ocupam um lugar que raramente aparece nas fotografias, embora seja indispensável para que a parte visível funcione.
Ali permanecem materiais relacionados ao Natal, ao Halloween, às festas juninas, às estações do ano e às coleções anteriores. Não é um estoque convencional de alimentos ou embalagens. É um acervo formado ao longo do desenvolvimento da própria cafeteria, composto por objetos que carregam as marcas de cada edição e podem retornar com novas combinações. Guardá-los exige cuidado, espaço e organização suficiente para que uma peça produzida em determinado ano seja localizada quando voltar a fazer sentido.
A existência desses depósitos permite compreender a Cakes por outro ângulo. O salão decorado não é um cenário isolado, criado e descartado após algumas semanas. Ele faz parte de um sistema de produção no qual cada elemento precisa ser pensado desde a criação até o momento em que será retirado, armazenado e eventualmente reutilizado. Quando o público vê o resultado, grande parte do trabalho já aconteceu. Quando o público deixa de vê-lo, outra etapa começa.

A trajetória de Ronaldo Savaris
A relação de Ronaldo Savaris com a cozinha começou antes de qualquer projeto profissional. Na infância, ele viveu com a família em uma comunidade ligada a uma madeireira, distante da área urbana. Cerca de quarenta famílias moravam naquele espaço. A ida à cidade ocorria, em geral, uma vez por mês, quando era necessário fazer compras e resolver compromissos que não podiam ser atendidos dentro da comunidade.
A rotina tinha poucas das referências hoje facilmente acessadas por uma criança interessada em cozinhar. Não havia internet, vídeos disponíveis a qualquer hora ou uma circulação constante entre restaurantes, lojas e cursos. Parte do contato de Ronaldo com a gastronomia acontecia pela televisão. Ele assistia aos programas apresentados por Ana Maria Braga, ainda no período em que a apresentadora trabalhava na TV Record, e se interessava pelas receitas exibidas.
A curiosidade o levava a copiar preparos e tentar reproduzi-los. Não havia, nesse momento, a ideia de transformar aquilo em profissão. Cozinhar era uma experiência doméstica, motivada pelo desejo de descobrir como os ingredientes se comportavam e se o resultado seria semelhante ao que havia aparecido na televisão. A aprendizagem começou, portanto, sem um roteiro definido, a partir da observação e da tentativa.
Anos mais tarde, quando a cozinha deixou de ser apenas curiosidade, Ronaldo continuou recorrendo a esse procedimento: observar, testar, avaliar o resultado e tentar novamente. A história dos bolos decorados mostra de forma clara como essa aprendizagem foi construída.

Esse modo de aprender continuaria presente em sua trajetória. Ronaldo não conta a própria história como se tivesse descoberto cedo uma vocação e seguido uma linha previamente determinada. Ao falar dos primeiros trabalhos, ele menciona testes, dúvidas e inseguranças. O domínio técnico veio com a repetição e com a necessidade de resolver os problemas apresentados por cada encomenda.
A distância da cidade também ajuda a situar o contexto em que esse interesse surgiu. As novidades chegavam em outro ritmo e o acesso a materiais era limitado pelas circunstâncias daquele cotidiano. As receitas vistas na televisão ofereciam uma janela para um repertório que não fazia parte da vida diária na madeireira. Copiar um preparo e tentar executá-lo significava transformar uma referência distante em alguma coisa concreta dentro de casa.
Da insegurança com a pasta americana aos grandes bolos de casamento
As fotografias dos bolos de Ronaldo Savaris revelam trabalhos de diferentes tamanhos e propostas. Há bolos temáticos, peças desenvolvidas para aniversários e estruturas de vários andares destinadas a casamentos. Em algumas imagens, a composição exige sustentação, equilíbrio entre os volumes, regularidade no acabamento e precisão na colocação dos elementos decorativos. O resultado pronto não mostra a insegurança que acompanhou o início desse processo.

Quando começou a trabalhar com bolos revestidos de pasta americana, Ronaldo ainda não se sentia seguro. A técnica impunha dificuldades específicas. A cobertura precisava ser aberta, aplicada e ajustada sem comprometer a superfície. A estrutura do bolo deveria suportar o peso da decoração. Nos projetos com vários andares, qualquer falha poderia interferir no conjunto. Era necessário compreender os materiais e aprender a corrigir problemas que surgiam durante a execução.
Ele foi avançando por meio de testes. Em vez de apresentar a confeitaria como uma habilidade que dominava desde o início, Ronaldo reconhece o período em que precisou descobrir como cada etapa funcionava. A experiência foi adquirida durante o trabalho, com a repetição dos movimentos e o aumento gradual da complexidade das encomendas.
Essa evolução pode ser observada no portfólio construído ao longo do tempo. Os bolos ganharam altura, estruturas mais elaboradas e acabamentos ajustados ao tema de cada celebração. Casamentos passaram a exigir projetos de vários andares, planejados para ocupar um lugar de destaque no ambiente da festa. A execução de uma peça desse porte envolve a preparação das massas e recheios, a montagem de cada módulo, o revestimento, a sustentação e a aplicação dos elementos decorativos. Há ainda o transporte e a instalação no local, etapas que precisam preservar tudo o que foi realizado na cozinha.
A imagem de Ronaldo diante de um grande bolo de casamento registra o ponto a que esse aprendizado chegou, mas não substitui a história anterior. Entre a insegurança com a pasta americana e a produção de estruturas complexas há anos de prática. A mudança não ocorreu de uma vez, nem foi resultado de uma técnica isolada. Ela se formou na soma das encomendas, dos erros corrigidos e das soluções encontradas durante o processo.
Os bolos continuam fazendo parte do trabalho da Cakes Savaris. A cafeteria tornou-se conhecida pelas temporadas, porém a produção destinada a aniversários, casamentos e outras celebrações permanece vinculada à origem do negócio. Os projetos são desenvolvidos a partir dos temas escolhidos pelos clientes, o que exige adaptar cores, formatos e elementos decorativos a cada pedido. Dessa forma, a produção não se limita ao que está disponível diariamente nas vitrines.

Essa parte da trajetória é importante para compreender o modo como Ronaldo passou a lidar também com o espaço da cafeteria. O profissional que aprendeu a construir um bolo por etapas, testando materiais e avaliando proporções, aplicou raciocínio semelhante à ambientação da Cakes. A decoração também foi crescendo por meio de experiências. Algumas ideias começaram pequenas, ganharam novos elementos e, com o tempo, exigiram uma estrutura cada vez maior.
Dos doces de festa à abertura da cafeteria
Antes da existência da cafeteria, o trabalho de Ronaldo estava ligado principalmente aos eventos. Os doces e bolos chegavam ao público em aniversários, casamentos e comemorações. A relação com o cliente acontecia por meio das encomendas, e cada produção era associada a uma ocasião específica. Quem provava um produto da Cakes dependia de uma festa ou de um pedido particular para encontrá-lo novamente.
A abertura de um espaço permanente surgiu como uma maneira de tornar aquela produção disponível no cotidiano. Na cafeteria, os clientes poderiam consumir os doces sem esperar por um evento. O negócio ganhou um endereço onde os produtos seriam expostos diariamente e servidos em um ambiente pensado para recebê-los.
A identidade pela qual a Cakes seria reconhecida, entretanto, não estava pronta na inauguração. Ela foi sendo construída durante o funcionamento da casa, à medida que Ronaldo observava o espaço, testava mudanças e identificava possibilidades que não estavam previstas no início.
Os macarons tiveram um papel importante nessa descoberta. A variedade de cores dos doces sugeria combinações visuais e oferecia um ponto de partida para pensar a ambientação. Ronaldo percebeu que a cafeteria poderia assumir identidades diferentes ao longo do ano, acompanhando as mudanças de estação e algumas datas comemorativas.

A ideia foi ampliada gradualmente. Em vez de manter uma decoração fixa, a Cakes começou a trabalhar com ciclos. O que inicialmente poderia parecer uma alteração pontual passou a orientar o calendário da empresa. A repetição anual permitiu avaliar o que funcionava, acrescentar novas peças e ampliar as propostas. A cada edição, o acervo aumentava e a equipe adquiria experiência para realizar montagens mais complexas.
Essa construção ajuda a afastar a impressão de que a cafeteria nasceu com um conceito completamente definido. Ronaldo chegou ao formato atual por meio da experimentação. Assim como ocorreu com os bolos, a segurança foi adquirida durante o processo. A Cakes foi assumindo sua identidade enquanto funcionava, sem separar a criação da prática cotidiana.
Um ano dividido em oito temporadas
O calendário da Cakes Savaris não corresponde somente às quatro estações do ano. Ronaldo criou um ciclo próprio, que intercala as estações com datas comemorativas. O verão abre a sequência, seguido pela Páscoa, pelo outono, pelas festas juninas, pelo inverno, pela primavera, pelo Halloween e pelo Natal.
Esses oito períodos organizam o trabalho e determinam quando cada projeto precisa começar. A duração das temporadas varia. Algumas permanecem por mais tempo no salão, enquanto outras ocupam poucas semanas. O Halloween, por exemplo, dura cerca de quinze dias, embora demande um volume expressivo de preparação. A brevidade da exposição não reduz a complexidade da montagem.
A existência de oito etapas impede que o planejamento seja feito somente quando uma data se aproxima. Se a equipe esperasse o encerramento de uma temporada para iniciar a seguinte, o calendário se tornaria inviável. Por isso, as atividades se sobrepõem. O salão vive uma edição, a comunicação prepara outra e os depósitos recebem materiais que serão utilizados posteriormente.
A Páscoa oferece um exemplo objetivo dessa antecedência. As fotografias são produzidas em outubro para que a coleção esteja pronta para ser lançada no fim de janeiro. Isso significa pensar em produtos, composições, cores e imagens quando o público ainda está distante daquela celebração. Entre a concepção e a exposição existe um intervalo destinado ao desenvolvimento da campanha e à preparação da produção.

As mudanças alcançam também o cardápio. Durante o inverno, a Cakes inclui preparações associadas ao período, como fondue, tiramisù e crème brûlée. A inclusão desses produtos mostra que o calendário interfere na cozinha e não se restringe ao salão. A escolha do que será oferecido precisa considerar a capacidade de produção, os ingredientes, a apresentação e a maneira como cada item se relacionará com a proposta da temporada.

Em outras épocas do ano, as vitrines e a ambientação conduzem a transformação. As cores dos objetos, as peças posicionadas no salão e os elementos utilizados pela equipe precisam formar uma linguagem coerente. Isso exige decisões que vão do planejamento geral aos detalhes. Uma alteração pequena pode parecer irrelevante isoladamente, mas interfere no conjunto quando repetida em diferentes pontos do espaço.

Oito transformações anuais também significam oito desmontagens. Ao final de cada período, o salão precisa ser preparado para receber a edição seguinte. Essa transição envolve retirar objetos, limpar o espaço, transportar peças, buscar materiais nos depósitos e instalar a nova decoração. Parte desse trabalho ocorre fora do horário de atendimento ou precisa ser organizada de forma que a operação da cafeteria continue.
O público costuma encontrar tudo pronto, mas a mudança depende de horas de trabalho de Ronaldo e da equipe. A montagem mobiliza pessoas com diferentes habilidades. Há peças que precisam ser pintadas, estruturas que exigem ajuste e elementos que são produzidos manualmente. Em alguns projetos, o trabalho envolve também artesãos e profissionais ligados à decoração. A imagem final resulta da participação de várias pessoas, ainda que o cliente não consiga distinguir cada contribuição.
A cafeteria visível e a estrutura que a sustenta
A organização física da Cakes ajuda a dimensionar esse processo. O espaço social, onde os clientes se sentam e encontram as vitrines, representa apenas uma parte da empresa. A cozinha mantém a produção diária de doces, bolos e itens do cardápio. Os depósitos recebem as peças das oito temporadas. Entre esses ambientes, circulam produtos, caixas, materiais decorativos e pessoas responsáveis por tarefas que acontecem simultaneamente.
A presença de aproximadamente 45 metros quadrados destinados ao armazenamento indica o peso das decorações no funcionamento do negócio. Em muitos estabelecimentos, uma área desse tamanho seria utilizada para ampliar o salão ou aumentar o número de mesas. Na Cakes, ela é necessária para guardar o acervo que permite alterar o espaço ao longo do ano.

Essa escolha tem consequências operacionais. Quanto maior o acervo, maior a necessidade de identificar, preservar e localizar as peças. Um objeto danificado durante o armazenamento pode comprometer parte da montagem futura. Uma caixa colocada no lugar errado pode atrasar a busca durante uma troca de temporada. Por isso, o trabalho de desmontagem precisa ser realizado com o mesmo cuidado empregado na instalação.
Os materiais também ocupam o espaço de maneiras diferentes. Algumas estruturas podem ser desmontadas. Outras exigem áreas maiores ou cuidados especiais. Tecidos, flores, luminárias e objetos frágeis não podem ser guardados da mesma forma. A organização precisa respeitar essas características e considerar por quanto tempo cada item permanecerá fora do salão.
Ao mencionar os depósitos, Ronaldo revela um aspecto pouco percebido pelos clientes. A decoração não termina naquilo que se vê. Ela demanda uma infraestrutura permanente, mesmo quando está guardada. Durante os meses em que um cenário não aparece, continua ocupando espaço e exigindo conservação. A cafeteria precisa manter disponível tudo aquilo que sustenta as temporadas seguintes.
Essa estrutura se aproxima, em determinados momentos, da lógica de uma pequena produção cenográfica. Há concepção visual, fabricação ou adaptação de peças, definição de posicionamento, montagem, iluminação, desmontagem e guarda. A diferença é que o cenário convive com uma cozinha profissional e com o atendimento diário de uma cafeteria. Não existe uma pausa completa entre a criação e a operação do negócio.
O Halloween como exercício de produção
Entre as oito temporadas, o Halloween tornou-se uma das mais trabalhosas e aguardadas. Embora permaneça pouco tempo em cartaz, mobiliza a equipe de maneira intensa e permite observar com clareza como o processo funciona.

A ambientação não começa necessariamente dentro da cafeteria. Em algumas edições, os elementos ocupam a área externa e conduzem o visitante até a entrada. Em um dos anos, o tema envolveu espantalhos e um cenário relacionado a um milharal. Para a edição seguinte, Ronaldo planejou um circo do terror. Cada tema exige selecionar referências e decidir quais estruturas poderão ser produzidas dentro das condições do espaço.

A equipe participa também por meio da caracterização. Há maquiagem, figurinos e preparação antes do início do atendimento. Isso acrescenta outra camada à organização da temporada, porque os profissionais precisam chegar mais cedo e estar prontos no momento da abertura. A decoração, portanto, não permanece estática. Ela se estende ao modo como a equipe se apresenta durante aqueles dias.

O interesse do público pelo Halloween cresceu em parte porque Porto Velho ainda possui poucas iniciativas permanentes com esse tipo de produção. A Cakes passou a oferecer uma edição anual que modifica o ambiente e cria expectativa em torno do tema escolhido. Esse interesse, contudo, é sustentado por um período de exposição curto quando comparado ao tempo de preparação.
As peças usadas em uma edição podem voltar ao depósito, ser modificadas ou dar lugar a novos elementos. O acervo registra, dessa maneira, a história visual das temporadas anteriores. Ao abrir uma caixa, a equipe encontra materiais de um cenário que já ocupou o salão e que talvez seja incorporado a outra composição. A decoração acumula camadas e se transforma conforme os projetos avançam.
O Halloween é um caso visível, mas o mesmo raciocínio está presente nas demais temporadas. O Natal exige planejamento e armazenamento de peças volumosas. As festas juninas recorrem a outro repertório de formas e cores. O inverno interfere no cardápio. A primavera e o verão pedem leituras diferentes do espaço. Cada período apresenta dificuldades próprias e amplia o conhecimento da equipe sobre o que pode ser realizado dentro da cafeteria.
Uma forma de trabalhar construída na prática
A trajetória de Ronaldo Savaris pode ser acompanhada por meio dos problemas que ele aprendeu a resolver. Na infância, tentava reproduzir as receitas que via na televisão. Mais tarde, precisou superar a insegurança diante da pasta americana e compreender a estrutura dos bolos de vários andares. Ao abrir a cafeteria, descobriu que a identidade do negócio não precisava estar totalmente definida no primeiro dia. Ela poderia ser construída pela observação e ajustada durante o funcionamento.
As oito temporadas são consequência dessa forma de aprender. Ronaldo não recebeu um modelo pronto de cafeteria para aplicar. Ele foi testando alterações, percebendo a resposta do público e ampliando a estrutura à medida que as ideias se tornavam mais complexas. O resultado atual reúne cozinha, confeitaria, atendimento, produção visual e uma logística de armazenamento que provavelmente não era imaginada no início do projeto.
Essa construção contínua aparece também na maneira como ele fala do trabalho. As referências ao calendário e aos depósitos ocupam tanto espaço quanto as receitas. A decoração não é tratada como um acabamento acrescentado depois de tudo pronto. Ela interfere na organização do ano e na utilização da estrutura física do estabelecimento.
Para quem observa apenas o salão, a mudança entre uma temporada e outra pode parecer rápida. Uma decoração desaparece e outra ocupa seu lugar. Nos bastidores, porém, a transformação inclui tarefas anteriores e posteriores à montagem. É preciso planejar, produzir, transportar, instalar, manter, desmontar e armazenar. Em seguida, o ciclo recomeça.
O cuidado dedicado a esse processo ajuda a explicar por que a Cakes reserva uma área tão grande aos materiais que não estão em exibição. O espaço social da cafeteria depende desse equivalente invisível. Sem a cozinha, os depósitos, o trabalho manual e a participação da equipe, a parte fotografada pelo público não existiria da mesma forma.
Ronaldo resume o objetivo de maneira direta ao dizer que deseja que o cliente se sinta especial e encontre algo diferente. A frase não elimina o caráter comercial do negócio, nem transforma a cafeteria em um espetáculo permanente. Ela ajuda a compreender por que o ambiente recebe tanta atenção. Para Ronaldo, servir um doce ou um café envolve também pensar no espaço em que aquele produto será consumido.
A Cakes Savaris se desenvolveu, assim, em duas dimensões que funcionam ao mesmo tempo. Uma delas está aberta ao público, muda oito vezes por ano e aparece nas fotografias. A outra permanece nos bastidores, formada pela cozinha, pelos depósitos, pelo acervo, pelas horas de montagem e pelo trabalho das pessoas que participam de cada edição.
Ao conhecer essa segunda dimensão, o leitor compreende que as transformações da cafeteria não acontecem apenas porque o calendário mudou. Elas dependem de uma organização iniciada meses antes e de uma experiência acumulada durante anos de testes. A mesma disposição que levou Ronaldo Savaris a insistir nos primeiros bolos revestidos com pasta americana continua presente quando ele planeja uma coleção, avalia um cenário ou prepara o espaço para a próxima temporada.
O salão é o lugar onde esse trabalho se torna visível. A história, porém, começa muito antes de as portas se abrirem.

O próximo cenário ainda está por ser construído
Quem acompanha a trajetória de Ronaldo Savaris percebe que cada etapa da Cakes nasceu quando a anterior já parecia consolidada. Primeiro vieram os bolos, depois a cafeteria, em seguida as mudanças sazonais, os grandes cenários e um método de trabalho que hoje exige planejamento durante todo o ano. Para ele, entretanto, o projeto ainda não chegou ao ponto em que imagina.
O desejo é que a Cakes cresça fisicamente. Um espaço maior permitiria ampliar aquilo que hoje já acontece em escala reduzida: construir ambientes capazes de transportar o visitante para outra atmosfera. Ronaldo cita Gramado como uma referência, não pela reprodução de um modelo, mas pela forma como a cidade transforma cenários, iluminação, decoração e experiências em parte da própria identidade turística. É esse tipo de encantamento que ele pretende desenvolver dentro da cafeteria.
A ideia não é apenas decorar um ambiente. É fazer com que cada temporada seja capaz de envolver o visitante desde o momento em que atravessa a porta. Que a mudança de uma estação para outra seja percebida na arquitetura, nos aromas, nos produtos, na iluminação, nos personagens e na atmosfera criada pela equipe. Um lugar onde a confeitaria continue sendo protagonista, mas dividindo espaço com a imaginação.
Talvez por isso seja difícil definir a Cakes Savaris apenas como uma cafeteria. Ela nasceu da confeitaria, desenvolveu um calendário próprio, transformou o planejamento em método de trabalho e fez da ambientação uma extensão da cozinha. Enquanto muitos projetos encontram uma forma definitiva de funcionar, Ronaldo continua pensando no próximo cenário, na próxima coleção e na próxima transformação.
No fim, é essa inquietação que une toda a sua trajetória. O menino que copiava receitas de televisão, o confeiteiro que enfrentou a insegurança diante da pasta americana, o profissional que passou a produzir bolos monumentais para casamentos e o empresário que hoje organiza oito temporadas por ano são a mesma pessoa: alguém que nunca considerou seu trabalho concluído.
Talvez seja justamente por isso que a história da Cakes Savaris permaneça em constante transformação. Afinal, para Ronaldo, a próxima temporada sempre começa antes que a atual termine.

Uma receita para marcar esta edição
Ao participar desta reportagem, Ronaldo Savaris também aceitou um convite do Portal Chefs de Rondônia para registrar uma receita que representa seu trabalho na confeitaria.
Especialmente para esta edição, ele desenvolveu uma cocada cremosa com caramelo de cupuaçu e chocolate belga 70%, combinação que reúne técnicas da confeitaria contemporânea com ingredientes que dialogam com a identidade amazônica. A receita completa passa a integrar o acervo gastronômico do Portal e poderá ser consultada na seção de receitas, onde ficará disponível ao lado de outras preparações desenvolvidas por chefs e cozinheiros de Rondônia.

O registro dessa receita amplia o propósito desta reportagem. Ao contar a trajetória de Ronaldo Savaris, o Portal preserva também uma parte de seu repertório culinário, permitindo que o leitor conheça não apenas a história construída ao longo dos anos, mas também um preparo concebido por ele e compartilhado com quem acompanha o desenvolvimento da gastronomia rondoniense.

As temporadas da Cakes Savaris mudam oito vezes por ano. Os cenários são desmontados, novas vitrines ocupam o salão e outras coleções passam a receber os visitantes. A receita publicada nesta edição, entretanto, permanece como um registro desse momento.
É justamente essa a proposta do Portal Chefs de Rondônia: reunir histórias, técnicas e receitas para formar um acervo permanente da gastronomia do Estado, preservando o trabalho de quem ajuda a construir, diariamente, a identidade culinária de Rondônia.
Visite a Cakes Savaris
Depois de conhecer a trajetória de Ronaldo Savaris, descubra a cafeteria onde suas ideias ganham forma. Conheça as especialidades da casa, os ambientes temáticos e as informações para sua visita.
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