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Hamburgueria Papa Chico: a história de João Vitor Vieira e da casa inspirada pela fé, simplicidade e dedicação em servir pessoas

Foto do escritor: Chefs de Rondônia
Chefs de Rondônia
30 de jul.
8 min de leitura

Atualizado: 8 de ago.

João Vitor Vieira imaginava construir carreira na Medicina Veterinária quando a gastronomia começou a ocupar outro espaço em sua vida. A mudança de rumo o levou às cozinhas, ao fogo de chão, às parrillas e, anos depois, à criação da Hamburgueria  Papa Chico, construída a partir de escolhas marcadas pela simplicidade, pela fé e pela convicção de que servir bem começa muito antes do primeiro hambúrguer chegar à mesa.


Estátua de Nossa Senhora iluminada por velas, com João desfocado ao fundo. Foto de Eduardo Francischelli.
Estátua de Nossa Senhora iluminada por velas, com João desfocado ao fundo. Foto de Eduardo Francischelli.

Hamburgueria Papa Chico Porto Velho. Um caminho construído aos poucos


Quando perguntam sobre o futuro do Papa Chico, João Vitor não fala em novas unidades, franquias ou expansão. A resposta segue outro caminho. Ele prefere viver a fase que a hamburgueria atravessa hoje. A ideia reaparece diversas vezes ao longo da conversa e ajuda a compreender a forma como conduziu a própria trajetória. Em vez de antecipar etapas, escolheu aprender cada uma delas.


O plano inicial era outro. Depois de concluir o ensino médio, ingressou na faculdade de Medicina Veterinária, em Goiás, acreditando que construiria carreira na área. Durante esse período, tornou-se pai. A nova responsabilidade fez com que passasse a pensar com mais atenção no futuro profissional e na necessidade de encontrar uma atividade que também lhe proporcionasse uma fonte de renda.


Foi nesse período que começou a olhar para a gastronomia de maneira diferente.


O que chamou sua atenção não foi a possibilidade de abrir um restaurante ou trabalhar com hambúrgueres. O interesse nasceu ao observar a rotina dos cozinheiros que admirava. Percebeu que eram profissionais que estudavam continuamente, conviviam com pessoas experientes e aprendiam fazendo. A dificuldade da profissão, longe de afastá-lo, despertou sua curiosidade.

"Eu entendi a dificuldade que era ser cozinheiro. Acreditei que dava conta de ser isso."

A decisão abriu espaço para um período intenso de aprendizado. João passou a pesquisar técnicas de churrasco, acompanhar cozinheiros especializados e estudar diferentes métodos de preparo. Ainda em Goiás, participou de eventos de fogo de chão, onde teve os primeiros contatos práticos com uma cozinha organizada em torno da carne e da brasa.


A afinidade com esse universo também encontrava raízes na própria história da família. O avô foi tropeiro em Goiás, conduzindo boiadas quando o transporte ainda era feito pelas estradas de terra. O pai trabalhou com gado e João cresceu acompanhando cavalgadas e manifestações ligadas à cultura sertaneja. Essas lembranças nunca haviam sido associadas à gastronomia, mas acabaram aproximando-o naturalmente do churrasco quando decidiu mudar de profissão.


João Vitor corta ingredientes para sanduíches, focado na perfeição culinária. Foto por Eduardo Francischelli.
João Vitor corta ingredientes para sanduíches, focado na perfeição culinária. Foto por Eduardo Francischelli.

Da cozinha de casa à cozinha profissional


A mudança para Porto Velho aconteceu durante a pandemia, ao lado de Juliana. Com boa parte das atividades suspensas, a cozinha de casa tornou-se um espaço de experimentação. Hambúrgueres passaram a fazer parte da rotina. João repetia receitas, alterava ingredientes, testava pontos de cocção e observava como pequenas mudanças modificavam o resultado final.


Foi nessa época que recebeu um incentivo decisivo da mãe. Embora nunca tenha trabalhado profissionalmente com gastronomia, ela sempre gostou de cozinhar e sugeriu que o filho transformasse aquele interesse em profissão. A ideia encontrou apoio dentro de casa e consolidou uma decisão que já vinha sendo construída havia algum tempo.


Em vez de procurar uma graduação em Gastronomia, João escolheu o curso profissionalizante do Instituto Gastronômico das Américas (IGA). A formação lhe proporcionou contato com os fundamentos da cozinha profissional, desde técnicas de preparo e cortes até a organização da rotina de uma cozinha, conhecimentos que considerava essenciais para dar os primeiros passos na profissão.


Concluída a formação, entendeu que precisava aprender onde a cozinha realmente acontece: dentro de um restaurante.


João prepara hambúrguer sob o olhar de uma imagem do Papa Francisco, homenageando o pontífice com o nome da hamburgueria, "Papa Chico". Foto: Eduardo Francischelli.
João prepara hambúrguer sob o olhar de uma imagem do Papa Francisco, homenageando o pontífice com o nome da hamburgueria, "Papa Chico". Foto: Eduardo Francischelli.

O encontro com o Bera Parrilha


Enquanto pesquisava referências de parrilla pelo país, João descobriu cozinheiros que haviam construído negócios começando pequenos, concentrando esforços na técnica e na qualidade da execução. Quando chegou a Porto Velho, decidiu conhecer o recém-inaugurado Bera Parrilha.


A visita tinha um objetivo simples: observar como funcionava aquela cozinha.


Durante a conversa com Pedro, proprietário do restaurante, contou que havia decidido trocar a Medicina Veterinária pela gastronomia e procurava uma oportunidade para trabalhar na área.


O convite veio imediatamente.


No dia seguinte, já integrava a equipe do Bera Parrilha.


A experiência marcou o início da vida profissional na gastronomia. Ali conheceu o funcionamento de uma cozinha, participou da rotina do restaurante, aprendeu procedimentos e passou a compreender aspectos que não aparecem para quem observa apenas o salão. Mais tarde, ao lado de Pedro e Aquino, integrou um projeto dedicado a eventos de churrasco, atendendo casamentos, festivais, confraternizações e apresentações de fogo de chão em diferentes cidades.


Cada trabalho ampliava seu repertório. Nenhum deles era encarado como um ponto de chegada.


O próprio João não demonstrava pressa em abrir um negócio.


Preferia acumular experiências, observar processos e aprender com quem já percorria aquele caminho.


Foi desse período que começou a nascer a ideia do Papa Chico.


Uma hamburgueria do tamanho que precisava ser


A ideia de abrir um negócio próprio acompanhava João desde os primeiros meses na gastronomia, mas ele nunca imaginou começar por uma estrutura grande. As referências que pesquisava mostravam justamente o contrário: casas pequenas, cozinhas enxutas e proprietários que conheciam cada etapa da operação.


Quando encontrou o ponto onde hoje funciona o Papa Chico, enxergou a possibilidade de construir exatamente esse modelo.


Fachada da hamburgueria Papa Chico à noite, onde João Vitor e sua equipe estão ao fundo preparando sanduíches. Foto: Eduardo Francischelli.
Fachada da hamburgueria Papa Chico à noite, onde João Vitor e sua equipe estão ao fundo preparando sanduíches. Foto: Eduardo Francischelli.

Participou da reforma do imóvel, pintou paredes, organizou o espaço, montou o balcão e acompanhou cada detalhe da implantação. Queria entender o funcionamento da hamburgueria desde o primeiro dia. Não havia interesse em abrir um negócio maior do que conseguiria administrar.


Essa escolha também estava ligada à forma como compreende o empreendedorismo. João acredita que muitos negócios fracassam porque tentam crescer antes de consolidar a operação inicial. Preferiu seguir outro caminho: começar pequeno, conhecer os processos, corrigir erros e permitir que o crescimento acontecesse no momento adequado.


A lógica aparece também no cardápio.


Em vez de reunir dezenas de hambúrgueres e combinações diferentes, optou por uma seleção reduzida de receitas. O objetivo era concentrar atenção na execução, facilitar o controle da cozinha e manter um padrão de qualidade que pudesse ser repetido diariamente.


Durante a entrevista, resume essa ideia em uma frase curta.

"O mais sofisticado, às vezes, é o mais simples."

A simplicidade, para João, não significa fazer menos por falta de opção. Significa retirar aquilo que considera desnecessário para concentrar energia no que realmente importa.


Essa mesma lógica orienta a comunicação da hamburgueria, a identidade visual e até a maneira como pretende conduzir o negócio nos próximos anos.


Elementos de fé de João adornam a hamburgueria, infundindo inspiração e devoção ao ambiente. Foto: Eduardo Francischelli.
Elementos de fé de João adornam a hamburgueria, infundindo inspiração e devoção ao ambiente. Foto: Eduardo Francischelli.

O nome que une fé e hospitalidade


A escolha do nome surgiu quando João conheceu um restaurante chamado Madre Teresa, inspirado em Madre Teresa de Calcutá.


A ideia de homenagear uma personalidade permaneceu guardada durante algum tempo, até que começou a pensar na identidade da própria hamburgueria.


Foi então que decidiu homenagear o Papa Francisco.


Segundo João, a escolha está ligada à admiração que tem pela simplicidade com que o pontífice conduz a própria vida e pela forma como manifesta sua fé. Ao mesmo tempo, percebeu que o nome permitia uma associação espontânea com o verbo "papar", expressão incorporada à comunicação da casa por meio da frase "Vamos papar, Chicos", utilizada nas redes sociais.


O resultado foi um nome que une uma referência pessoal à proposta acolhedora da hamburgueria.


Nada foi pensado para causar impacto imediato. A intenção era criar uma identidade coerente com aquilo que acredita.


Servir vem antes de cozinhar


Ao longo da entrevista, João fala sobre carnes, técnicas, gestão e empreendedorismo. Ainda assim, o assunto que mais aparece não é nenhum deles.


É o atendimento.


Para ele, preparar um bom hambúrguer não representa um diferencial competitivo.

"A comida ser boa é uma obrigação."

O que faz uma pessoa voltar, segundo João, acontece durante toda a experiência dentro da hamburgueria.


Ela começa quando o cliente entra pela porta, é recebido pela equipe, faz o pedido, permanece à mesa e termina quando decide retornar.


Quem chega ao Papa Chico pode estar encerrando o expediente, comemorando uma conquista ou simplesmente procurando um momento de descanso.


Independentemente da ocasião, João acredita que o papel da equipe é fazer com que todos sejam bem recebidos.


As lembranças que os clientes compartilham ocupam um lugar especial nessa rotina.


Ele conta que alguns associam determinado sabor a uma comida da infância ou a um momento vivido em família. Essas histórias fazem parte das conversas que mais o motivam a continuar trabalhando.


O mesmo acontece quando observa o crescimento das pessoas que trabalham ao seu lado. Ver a equipe aprender, assumir responsabilidades e evoluir profissionalmente também faz parte do resultado que procura construir dentro da hamburgueria.


Respeito pelo ingrediente e por quem o produz


Ao escolher trabalhar com carnes, João também passou a refletir sobre a responsabilidade que acompanha esse ingrediente. Cresceu em uma família ligada ao campo, acompanhando de perto a criação de gado e a cultura boiadeira de Goiás. O avô foi tropeiro. O pai trabalhou com pecuária. As cavalgadas faziam parte das lembranças da infância.


Essa convivência fez com que enxergasse a carne para além do produto que chega à cozinha.


Durante a entrevista, afirma que quem trabalha com esse ingrediente precisa compreender todo o caminho percorrido até ele chegar ao prato. Há pessoas envolvidas na criação dos animais, na produção, no transporte e no processamento. Existe trabalho, investimento e tempo.


Por isso, acredita que cozinhar também exige respeito.


O desperdício, na sua visão, não representa apenas perda financeira. Significa desconsiderar todo esse processo.


Ao mesmo tempo, defende que o consumo de carne seja feito de forma consciente. Não vê sentido em excessos nem em preparar alimentos sem atenção à qualidade. Prefere servir menos, desde que consiga manter o padrão que considera adequado.

Essa postura também orienta as escolhas dentro da hamburgueria.


Os ingredientes são selecionados pensando na regularidade do produto, na procedência e na capacidade de repetir diariamente o mesmo resultado. João acredita que o cliente retorna quando encontra confiança naquilo que consome.


Hambúrguer suculento com duas camadas de queijo derretido e coberto com molho especial e tiras crocantes, servido no pão macio. Foto por Eduardo Francischelli.
Hambúrguer suculento com duas camadas de queijo derretido e coberto com molho especial e tiras crocantes, servido no pão macio. Foto por Eduardo Francischelli.






Flan sobremesa típica da Argentina servido no Papa Chico. Foto: Eduardo Francischelli.
Flan sobremesa típica da Argentina servido no Papa Chico. Foto: Eduardo Francischelli.

Um projeto que continua sendo construído


Apesar de já ter conquistado espaço entre as hamburguerias de Porto Velho, João evita falar em ponto de chegada.


Os planos para o futuro existem, mas não ocupam o centro das atenções.


Antes de pensar em novas unidades ou em ampliar a operação, prefere fortalecer aquilo que já foi construído. A preocupação continua sendo a mesma dos primeiros dias: compreender o negócio, aperfeiçoar processos, desenvolver a equipe e manter a qualidade do atendimento.


É por isso que, quando perguntam onde imagina o Papa Chico daqui a alguns anos, a resposta não começa pelo tamanho da empresa.


Começa pelo presente.


João prefere viver uma etapa de cada vez.


A filosofia acompanha a própria trajetória. Foi assim quando deixou a Medicina Veterinária para ingressar na gastronomia. Foi assim ao estudar churrasco antes de trabalhar em uma cozinha profissional. Foi assim no período em que aprendeu ao lado da equipe do Bera Parrilha. Também foi assim ao abrir uma hamburgueria pequena, construindo cada detalhe do negócio antes de pensar em crescer.


Entre todas as ideias compartilhadas durante a entrevista, talvez nenhuma resuma tão bem sua forma de enxergar a profissão quanto a maneira como define o próprio trabalho.

Servir bem não começa quando o hambúrguer chega à mesa.


Começa no respeito pelo ingrediente, pela equipe, pelo cliente e pelo tempo necessário para construir cada etapa do caminho.


E, quanto à comida, João não deixa dúvidas sobre o que espera de quem escolhe trabalhar em uma cozinha.

"A comida ser boa é uma obrigação."


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