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Fernanda Amaral: quando a saudade se transforma em mesa posta

Foto do escritor: Chefs de Rondônia
Chefs de Rondônia
28 de jul.
6 min de leitura

Atualizado: 29 de jul.

Fernanda Amaral, chef e fundadora do Serrote Restaurante, transformou lembranças da infância, sabores amazônicos e a identidade ribeirinha em uma cozinha que preserva memórias e desperta recordações à mesa..


Raunei Nascimento segura a bandeira de Rondônia, estado cuja identidade gastronômica ajudou a valorizar ao longo de sua trajetória. Foto: Eduardo Francischelli


Fernanda Amaral e a casa onde tudo começou


A história de Fernanda Amaral começa muito antes de existir um restaurante. Começa em uma casa da Arigolândia, em Porto Velho, onde a cozinha ocupava um lugar tão importante quanto a sala. Era ali que a família se reunia, que as conversas atravessavam a tarde e que as receitas passavam de uma geração para outra sem nunca terem sido escritas.


Criada pelos avós, vindos do Baixo Madeira para a capital entre o fim da década de 1940 e o início dos anos 1950, Fernanda cresceu em uma família formada por onze filhas. Enquanto o avô trabalhava na antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, reformando embarcações, a avó permanecia em casa. A cozinha era seu território cotidiano e, ao redor dela, girava a rotina de uma família que encontrava nas refeições um momento de convivência.


Os fins de semana tinham um ritual conhecido. Filhas, netos e outros parentes chegavam para almoçar. Cada um preparava um prato, alguém cuidava do arroz, outro da carne, outro dos acompanhamentos. No meio desse movimento, Fernanda e três primos permaneciam ao lado da avó, ajudando a cortar ingredientes, mexer panelas e acompanhar o preparo das receitas.


Ela não se recorda de ter aprendido por meio de explicações. Aprendeu observando. Repetindo gestos. Permanecendo perto do fogão enquanto a comida reunia a família.


Anos depois, quando os avós partiram, aquela dinâmica começou a desaparecer. As reuniões perderam a frequência que tinham durante décadas e a pandemia ampliou ainda mais esse distanciamento. Foi nesse período que Fernanda compreendeu o que realmente lhe fazia falta.


"O Serrote surgiu para matar uma certa saudade", resume.


A frase explica a origem do restaurante com mais precisão do que qualquer descrição sobre cardápio ou conceito gastronômico.


Como Fernanda Amaral transformou lembranças em um restaurante


Antes de escolher o nome do restaurante, Fernanda pensou em outras possibilidades. Nenhuma delas, porém, carregava a história que desejava preservar.


A lembrança veio do avô.


Sempre que alguém chegava para uma refeição na casa da família, ou quando ele próprio era convidado para comer em outra casa, repetia a mesma brincadeira:


"Chegou o serrote."


Era sua maneira de anunciar que alguém estava pronto para "serrar" a comida.


Décadas depois, a expressão atravessou o tempo e se transformou na identidade do restaurante.


Quem conhece o Serrote pela primeira vez costuma imaginar alguma relação com marcenaria ou carpintaria. Fernanda sorri ao perceber a associação. Explica que o nome não nasceu de uma ferramenta, mas de uma expressão doméstica, repetida tantas vezes que acabou se tornando uma lembrança permanente da convivência com os avós.


Foi também a partir dessas lembranças que surgiu a proposta do restaurante.


Em vez de construir um cardápio distante da própria história, ela decidiu trazer para a mesa receitas, sabores e referências que fizeram parte da infância. Não para reproduzi-las exatamente como eram preparadas, mas para permitir que continuassem vivas sob novas formas.


Os pratos que contam a história da família


Poucos restaurantes conseguem explicar sua identidade apenas olhando o cardápio.


No Serrote, quase todos os pratos carregam uma lembrança.


A Carninha da Vó nasceu da receita preparada sempre que parentes chegavam de viagem. Era um daqueles pratos reservados para os dias em que a casa voltava a ficar cheia.


O Vô Fernando presta homenagem ao avô, que costumava reunir arroz, carnes e os ingredientes disponíveis em um grande mexido servido à família. Fernanda reinterpretou essa memória acrescentando charque, banana frita e queijo coalho. A receita rapidamente passou a figurar entre as mais pedidas do restaurante.



Mas há um princípio que orienta toda a cozinha do Serrote.


Fernanda costuma dizer, em tom de brincadeira, que gosta de "beiradeirar" a comida.


A ideia consiste em partir de pratos conhecidos da gastronomia brasileira e reinterpretá-los a partir dos sabores amazônicos, incorporando ingredientes, peixes e referências culinárias da região. Em vez de copiar receitas tradicionais, ela procura fazê-las conversar com a identidade ribeirinha de Rondônia.


O exemplo mais conhecido dessa proposta é o Tambaqui Internacional.


A inspiração veio do tradicional camarão internacional. Fernanda decidiu preservar a estrutura do prato, mas substituiu o ingrediente principal por um dos peixes mais emblemáticos da culinária amazônica. Antes mesmo da abertura do restaurante, preparou uma versão para amigos. A aprovação confirmou que a receita tinha encontrado seu lugar no cardápio.


A mesma proposta aparece na Piracuxinha. O formato lembra uma coxinha, mas a massa leva banana comprida; o recheio reúne pirarucu seco desfiado, banana frita e requeijão; e o molho combina manga e maracujá. A referência é conhecida. Os sabores pertencem à Amazônia.



Esse exercício de "beiradear" pratos conhecidos tornou-se uma das marcas da cozinha de Fernanda Amaral. É a forma que encontrou de valorizar ingredientes regionais sem romper completamente com referências que o público já reconhece, aproximando a culinária amazônica de quem a experimenta pela primeira vez.


Da fotografia à gastronomia


Durante mais de vinte anos, Fernanda Amaral construiu sua carreira profissional na fotografia.


Especializou-se em fotografia infantil no estilo fine art e conquistou espaço no mercado de Porto Velho, formando uma clientela que permanece até hoje.


Enquanto desenvolvia essa trajetória, o desejo de abrir um restaurante continuava presente.


Antes do Serrote, participou de outro empreendimento em sociedade. Levou para aquele projeto a identidade que imaginava para uma cozinha autoral. O encerramento da sociedade poderia ter representado o fim daquele sonho.


Para Fernanda, acabou sendo um recomeço.


Foi depois dessa experiência que decidiu construir um restaurante onde pudesse desenvolver integralmente sua própria proposta.


Fernanda Amaral e a força da gastronomia amazônica


Embora seja reconhecida pelo trabalho desenvolvido na cozinha, Fernanda faz questão de dizer que nunca cursou uma faculdade de Gastronomia.


Grande parte do conhecimento foi construída na prática, observando a avó, pesquisando, perguntando, assistindo a conteúdos especializados e, principalmente,

experimentando. O desejo de estudar permanece vivo. Ela pretende cursar Gastronomia e aprofundar esse aprendizado aproximando-se das comunidades ribeirinhas,

conhecendo ingredientes, técnicas e preparações preservadas por quem vive às margens dos rios amazônicos.


Quando fala da culinária regional, Fernanda demonstra entusiasmo. Para ela, a gastronomia amazônica ainda está no início do reconhecimento que pode alcançar. A variedade de peixes, frutas, ervas e temperos oferece um campo quase inesgotável para a criação.


Ao explicar como enxerga essa cozinha, ela recorre a uma expressão que ouviu e viveu desde cedo.


"A comida beiradeira não tem pena de colocar tempero."


Na cozinha de sua infância, tomate, cebola, pimenta-de-cheiro, cheiro-verde e outros ingredientes nunca eram tratados como coadjuvantes. Eram eles que davam identidade aos pratos preparados pela avó e por tantas cozinheiras ribeirinhas.


Fernanda acredita que essa generosidade é uma das características da culinária amazônica. Para ela, são justamente esses sabores intensos, combinados à diversidade de peixes, frutas e ingredientes da floresta, que oferecem liberdade para criar sem perder o vínculo com a tradição.


É desse encontro entre memória, criatividade e respeito às raízes que nasce a cozinha do Serrote.







O legado que deseja deixar


Ao final da entrevista, a pergunta era simples.


Como gostaria de ser lembrada?


Fernanda Amaral não respondeu falando sobre sucesso, empreendedorismo ou reconhecimento profissional.


Falou das próprias raízes.


Disse sentir orgulho de ser beradeira, de carregar consigo a história da família que ajudou a construir Rondônia e de preservar essa identidade em tudo o que faz.


Contou que muitos clientes, depois da primeira garfada, comentam que voltaram à infância. Lembram da comida da avó, de um almoço em família ou de uma receita que parecia esquecida havia muitos anos.


Ela escuta esses relatos como quem reconhece o sentido do próprio trabalho.


Talvez porque tenha sido exatamente isso que procurou desde o começo.


Transformar a saudade que um dia sentiu em um lugar onde outras pessoas também possam reencontrar as suas próprias lembranças.


E, quando pensa no futuro, é essa herança que espera deixar.


Um legado afetivo construído pela comida, pelas histórias e pela certeza de que preservar a memória de uma família também pode ser uma forma de preservar a memória de um lugar.


Além da reportagem, uma receita para guardar


Durante a entrevista concedida à Revista Digital Chefs de Rondônia, Fernanda Amaral preparou uma sequência de pratos que ajudam a contar a história de sua cozinha e da proposta do Serrote Restaurante.


Entre eles está a Piracuxinha, uma criação que sintetiza a ideia de "beiradear" receitas tradicionais com ingredientes amazônicos. A receita leva massa de banana comprida, recheio de pirarucu seco desfiado, banana frita e requeijão, acompanhada por um molho de manga com maracujá.


Em um gesto de valorização da gastronomia regional, Fernanda Amaral cedeu a receita da Piracuxinha à Revista Digital Chefs de Rondônia, onde ela passa a integrar o acervo gastronômico permanente da publicação, contribuindo para preservar e difundir um preparo autoral inspirado nos sabores de Rondônia.



Além da Piracuxinha, a chef também preparou especialmente para nossa equipe os seguintes pratos durante a entrevista:


  • [Nome do prato 1]

  • [Nome do prato 2]

  • [Nome do prato 3]

  • [Nome do prato 4]

  • [Nome do prato 5]


➡️ Leia também a receita completa da Piracuxinha, disponível no acervo da Revista Digital Chefs de Rondônia, e descubra o passo a passo dessa criação de Fernanda Amaral que une tradição, criatividade e ingredientes da Amazônia.






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